Você já se deu conta de quanta gente anda por aí manipulando, maquiando e alterando o sentido de palavras, conceitos e expressões só para sustentar suas visões pessoais?

Dia desses, li por aí alguma coisa mais ou menos assim: “ser gentil não é ser bem educado. É ser bem humano.”

Fiquei aqui comigo pensando. Ah, não? Desde quando?

E o gênio continuava seu sermão da montanha: “ser gentil é ser transparente, é deixar o outro saber o que você pensa, é dizer a verdade na cara, custe o que custar, mesmo que seja com agressividade. Porque é melhor ser um grosseiro de verdade do que um delicado hipócrita” e essas coisas das quais eu, naturalmente, discordo. Porque são falsas simetrias, argumentos fajutos, frasetas de efeito furadíssimas e trololós vagabundos.

Respiremos fundo e pensemos juntos: “ser transparente”, “deixar o outro saber o que você pensa” e “dizer a verdade na cara” são atitudes de uma alma sincera e louvável. Que bom seria se todos fôssemos assim. Deus nos reserve um mundo em que todos valorizássemos “dizer a verdade”!

Agora, “mesmo que seja com agressividade” é o escambau! Ser agressivo não é bom nunca. Não, não é “melhor ser um grosseiro de verdade do que um gentil hipócrita”. É melhor não ser grosseiro, não ser hipócrita e ser gentil. Ponto. Perverter o conceito de gentileza nesse bololô medonho é o cúmulo da superficialização e da picaretagem!

Discordo mesmo e o faço por um motivo muito simples: quem foi que disse que sinceridade e gentileza são ideias excludentes? Do jeito como se diz por aí, fica estabelecido que “ou você é uma coisa ou é outra”. Dá a impressão de que a pessoa gentil e sincera ao mesmo tempo é um mentiroso ou uma espécie de super-humano, uma impossibilidade, uma figura inverossímil. E que o verdadeiro “ser gentil” tem a permissão divina de ser grosseiro desde que seja “sincero”. Diga isso para alguém que adora uma verdade pronta e ele vai lhe responder na lata, sem pensar: “sim, é melhor ser grosseiro do que ser hipócrita”. E vai sair repetindo isso aqui e ali feito um papagaio bêbado.

Alto lá! Quer dizer que toda pessoa disposta a fazer uma gentileza, qualquer uma, é um maldito hipócrita potencial? Que generalização maluca é essa?

Não, caro portador da verdade. Melhor é ser verdadeiramente gentil. Vossa Senhoria vai me perdoar, mas aí já é demais, né? Ninguém precisa ser grosseiro para não ser considerado hipócrita. É possível ser sincero e bem educado, sim! Ser gentil nunca significou ser “transparente” a ponto de transparecermos ao outro tudo o que levamos dentro de nós, inclusive ódio. Expandir o conceito de gentileza até esse ponto é simplesmente distorcer o que as almas civilizadas compreendem e praticam como algo bem diferente.

É quase a mesma coisa que dizer “o abacaxi é uma fruta de casca grossa que nasce no coqueiro”. Aí já passa da conta. Mas passa muito. Vai bem além do cabo da boa esperança.

Nessa mesma linha, alguém recentemente questionou a ideia de respeito e boa convivência contida na famosa frase “gentileza gera gentileza”.

Dizia mais ou menos assim: “tem gente que finge ser gentil só para conseguir o que quer, e no fim das contas faz muito mal para os outros e gera um mundo de gente hipócrita”. Pois é. Isso se chama falsidade. Mas o fato de existirem pessoas falsas não tira a força e o valor da ideia de gentileza gerar gentileza!

Afinal, a frase que conhecemos não é “falsa gentileza gera falsa gentileza”. Há uma relação tão, mas tão enganosa nesse tipo de raciocínio forjado por alguns “gênios”, crescendo lá e cá feito uma abóbora venenosa, uma erva daninha, que me dá até azia e má digestão.

Eu tenho a impressão de que ninguém precisa atribuir novos significados a palavras e conceitos simples, como a gentileza, só para fundamentar o que pensa e o que sente. Não é honesto. E não carece. Para que engessar tudo e sair carimbando por aí que gentileza é isso, liberdade é aquilo e amor é aquele outro?

Para que tudo isso? Será que não dá pra deixar a coisa um pouco mais simples, não? Sejamos gentis, livres e amorosos. Pronto!

Manipular o sentido de palavras, ideias e sentimentos me parece coisa de marido machão que enfia a porrada na mulher até esfolar e depois diz na maior: “fiz por amor”. É o cúmulo da distorção. “Bati mesmo, mas foi para o bem dela. Doeu mais em mim.”

E tem gente que dá a isso nomes como “sinceridade”, “personalidade forte” e até “amor”.

Ora, faça-me o favor!

Quer dizer o que pensa? Diga. Quem não gostar que retruque, contraponha ou tão somente se afaste. Agora, falsificar o sentido de certas coisas universais só para dar base a uma ideia pessoal é, aqui para mim, desonestidade. É como afirmar, com a maior pinta de autoridade, limpando a garganta, em tom professoral, que “liberdade é ter o direito de querer ficar preso”. Confuso, não?

Quase a mesma coisa que pontificar assim, sem mais: “gentileza é fazer ao outro o favor de lhe mostrar que eu sou um grosso mesmo, porque é melhor ser um escroto e ser verdadeiro do que ser gentil e mentiroso”. Pronto. Está armada a confusão.

Não, minha gente. É melhor ser verdadeiro e ser gentil ao mesmo tempo. Pode ser difícil, mas é possível. Cabe às pessoas de bom coração fazer um esforço para tal.

É possível dizer qualquer verdade sem ser grosseiro. Quem não gostar tão somente sairá de perto.

“Ah, mas tem gente que não suporta ouvir a verdade”, me disse um bom amigo. Concordo, ainda que continue acreditando que cada um tem a sua “verdade” e é complicado empurrar a nossa versão em goela alheia sem permitir regurgitações. Mas nenhuma possível resistência do outro à nossa “verdade” é desculpa para sermos grosseiros ou agressivos ao expressá-la.

Todos podem se gabar de seus comportamentos. Até o ser grosseiro pode se orgulhar das patadas que distribui por aí. É uma escolha dele. Agora, dar a essa “transparência” o nome de “gentileza”… aí já força qualquer amizade.

Ser gentil é ser bem educado, sim. Gentileza é bom e todo mundo gosta. Sejamos honestos, verdadeiros, bravos, decentes. Mas que isso não nos tire nunca a capacidade da gentileza. Jamais!

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Jornalista e publicitário pós-graduado em Gestão Estratégica da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA-USP. Com 20 anos de experiência profissional, produziu conteúdo editorial e publicitário para inúmeros clientes em diversos segmentos. Tem seis livros publicados, é redator em agência de propaganda e professor da Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação – ESAMC em Sorocaba. No primeiro semestre de 2014, lançou o seu primeiro livro infantil e tem cinco títulos no catálogo da Editora Nova Alexandria.

Para conhecer seus livros, visite o site.

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