Em meio as traquinagens dessa vida, as meninices descompromissadas, aos sorrisos sempre novos, a timidez dos encontros e as descobertas inocentes, é chegada a hora em que o coração cansa de ser criança. Cansa de começar, cansa das mesmas falas, brincadeiras, filmes e trilhas sonoras. Esse coração repetente já tem força e coragem pra passar de ano. Não insista mais em deixá-lo preso na terceira série, implorando ao conselho de classe que não o deixe crescer.

Nas provas que a vida tem aplicado em você, sua pontuação é sempre máxima. Não há mais o que aprender. Essa sabatina de verbos que já foi vista, revisitada e aplicada em todas as ocasiões de dúvidas, não te traz mais surpresas, nem desafios. Não tem mais graça saber todas as respostas, dar de ombros a cada mal me quer e vira a página. Debaixo do travesseiro um dicionário de sintomas, sentidos e curas ganha título de guru e vira conselheiro de amigos. São histórias, nem sempre de finais felizes, que para outros ouvidos hoje devem servir.

Vê aquela turma que caminha calada pelos corredores da escola? Lá estão seus novos colegas de classe. Seu tempo é preenchido com a serenidade e a paciência das relações maduras. As brincadeiras do recreio foram substituídas por horas de estudo na biblioteca, em meio a grandes pensadores que tudo sabem. Os embates são resolvidos com longas conversas e não mais na simples desistência de quem não sabe lutar.

Vê como seguram suas mãos? Como pisam leves e devagar no chão? Como seus olhares, um para o outro, são doces e firmes? São movimentos de quem sabe onde vai chegar e com quem quer estar no final. Livres de dúvidas, anseios e sentimentos pequenos, esses pares têm corações que transbordam de amor e gentileza. Suas verdades e sonhos são compartilhados sem medo de fuga. E o calendário de provas já não mais os assusta, nem lhes deixa perder o sono, uma vez que todas as questões são resolvidas no coletivo.

É chegada a hora em que o coração cansa e grita. Clama e de joelhos implora para que o rio da vida siga seu curso, livre dos galhos e pedras que nos prendem no caminho. Vem comigo? O sinal já tocou.

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Jornalista e gestora cultural com especialização em marketing, comunicação digital e práticas dirigidas a elaboração de projetos de incentivo e fomento a arte em suas mais diversas manifestações. É diretora da Montenegro Produções Culturais, com sede em Curitiba, e da Guanabara Produções Culturais, como extensora dos projetos de arte para outros Estados do Brasil. Recentemente, produziu três edições do Festival de Teatro Infantil de Curitiba, quatro edições do Festival No Improviso Jazz & Blues, a série de encontros Conversarte, exposições artísticas, oficinas culturais, seminários de sustentabilidade e outros.

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